terça-feira, 21 de junho de 2011

Distanasia moderna

Abri o facebook, que quase nunca uso, e alguns antigos amigos haviam requisitado contato. Tanto tempo, uns 10 anos, casados, trabalhando, filhos, mudados...

Tudo parece que corre para eles. E para mim? Exatamente o mesmo, com 10 anos a menos de vida, ainda estudo, não tenho filhos, nem se quer namorada, e minhas experiências não me tornaram melhor em nada, em nada... pensando, dez anos sem mudanças mudaram minha disposição, talvez menos esperança, ou então nem isso, porque se a tivesse o quadro não seria um branco só.

E eu? Discretamente simpático, tenuemente agradável, razoavelmente ponderado: medíocre, no sentido exato da palavra, com habilidade suficiente para atravessar dez anos sem deixar ou sofrer marcas.

Dez anos acordando diariamente, uns 3650 dias saindo aos meus afazeres silenciosos, tomando banho, sendo conveniente, me alimentando, falando pouco, talvez o essencial; essencial para consumir dez anos em muito menos tempo.

O telefone passa meses sem tocar e quando toca nada mais que trinta ou quarenta segundos não sejam suficientes para meus amigos se fartarem da minha voz. Os contatos se escasseiam, há quantos anos não recebo uma carta? O computador permanece dias ligado sem que nenhum dos meus quase 250 contatos do MSN abram uma janela na minha tela. Mas, mesmo assim mantenho-o ligado para me sentir menos só.

Não obstante, já não me obrigo a puxar conversas, meu desespero não acomete: a sertralina entope a saída dessa brisa morna que sopra sem convicção e a fenda sem dreno eletriza os miolos.

Também não sinto mais remorso ou angustia, escrevo e questiono o transcorrido sem apertos ou taquipnéias, o fôlego é o mesmo e suficiente para mais dez anos insossos.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Filho do nada

Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é esse sofrimento imundo.

Pôs-se a pensar na vida, em como tudo passava-se tão rápido, como um terço de tudo foram-se em insignificância de tempo e refletiu sobre a insignificância dos terços vindouros. Sentia a morte em vida, nada que fizesse alteraria o fato de que em instantes a entropia desagregaria seu corpo.

Começou a pensar em como algumas pessoas marcam seus nomes no tempo em tão breve instante existencial. Mas do que isso importa? Que importa pro gênio que morreu sua genialidade rememorada? Nem o verme do verme que serviu-se do pasto pútrido esta mais feliz por isso. Mesmo a felicidade, do verme ou das pessoas, pouco importa, logo o corpo que abriga o espírito feliz também se desfaz.

Sentiu um estranho desprezo em pensar demais, desprezo em realizar esforços para compreender qualquer coisa já que o monstro devorador é invencível, e tanto mais humilhante a derrota certa quanto mais esforços se faz por vencer. Então chorar seu fim e aguardá-lo em vida medíocre lhe pareceu o mais digno a ser feito, a morte derrotaria um débil e não um herói, haveria menos tragédia.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Conversa de artista

Estufou o peito, aumentando ainda mais a corpulência robusta, não desviaria um centímetro pro lado da linha imaginaria que seguia na calçada. Viu que o rapaz aproximava-se distraído, olhando para o chão, com os braços flexionados e os polegares presos na alça da mochila e, fatalmente, acabariam se trombrando.

Uma espécie de raiva, mesclada com ansiedade, medo, e uma satisfação orgulhosa precederam o esbarrão. Sentiu um ódio ictal, como se a esquiva fosse resposabilidade exclusiva e negligenciada pela distração do rapaz.

Porra! – disse o rapaz sendo repelido fortemente para o lado em virtude da flacidez de sua musculatura despreparada para a transferência súbita de energia.
Cala sua boca filho da puta! – respondeu com o indicador vigorosamente setado na direção do rapaz.

Ansiava uma treplica do garoto, assim poderia precipitar, sua musculatura preparada, em um confronto. Qualquer palavra, mesmo uma repetência da manifestação inicial, seria suficiente para desencadear uma poesia bruta, rápida, incisiva e que seria lembrada e sentida por muito tempo.

Olhou com rugas violentas expressas na face, mas nem resposta nem olhar recebeu de volta. O rapaz se recompôs e partiu em silêncio.

Satisfeito, mas não plenamente, alisou a alça esquerda do suspensório. Uma sensação agradável percorreu seu corpo, e pode sentir as pernas mais leves, devido à descarga adrenérgica, e o impacto seco do coturno na calçada reverberava em suas pernas.

Relaxou o tórax, e soltou o ar excedente que inflava a carcaça pujante. Mais alguns passos se seguiram...

Seu pau no cú! – virou-se rapidamente e braços magros tinham na extremidade um bulldog firmado com as duas mãos tensas. A visão da abertura do cano e as ponteiras de chumbo no tambor fez com que o negro dos olhos claros se ampliassem. Reflexamente, levou a mão direita à frente, entre a arma e o rosto, e contraiu a musculatura facial.

Então, a tréplica...

O percussor transferiu a cinética do indicador e a catálise da pólvora propeliu o petardo plúmbico. O tecido glabro rompido, segundo metacarpo fraturado, deram passagem ao ponteiro, já deformado pelo impacto. Frações de segundos no ar e uma nova trajetória transfixou a pálpebra inferior, rasgando o globo ocular. A cabeça inclinada para traz, resultado da esquiva reflexa, garantiu que à passagem forçada pelo esfenóide, desse a bala um percurso ascendente no encéfalo. Metacarpo e esfenóide, pouparam o parietal, e com cinética insuficiente o metal alojou-se na massa tépida.

Quis levar a mão ao rosto, mas um espasmo tônico lançou seu corpo ao chão. O pescoço tensionado para traz e a boca fortemente fechada, ressaltou os vasos do pescoço e o platisma. A viscosidade morna e ferrosa tingia o chão em golfadas.

Sem romance nem heroísmo, sentiu que algo grave acontecia. E a perspectiva da morte chegava paulatina em meio a negações. Nem policia, nem punk, nem outro careca ou alguma treta a ser lembrada, uma bala anônima, uma história anônima; essa perspectiva acresceu pavor.

Toda a força física cultivada diariamente não impediu de sentir-se frágil, um medo crescente impeliu a buscar ajuda. Palavras não se formaram, apenas alguns grunhidos em meio a estertores.

A respiração encurtava e a freqüência aumentava, a tez empalidecia. Os pensamentos tornavam-se ainda mais confusos.

A tensão muscular passava, e o controle se reestabelecia na mesma medida em que uma dor pulsátil era sentida em crescente na hemi-face estourada. Virou-se e, em decúbito lateral, apoiou a mão sã no chão e com esforço quase se pos sentado, mas faltou-lhe força, ou talvez o controle da força e, sem resistência, tombou de lado, o ombro atingiu primeiro o chão, gerando um efeito chicote, lançando a cabeça com força contra o cimento tingido de vermelho.

Curvou a cabeça, quase encostando o queixo no esterno, e as mãos tentavam agarrar os cabelos que, em cabeça raspada, não davam margem para preensão. Enquanto isso, as pernas se fletiam e voltavam a esticar, uma após outra, dando certa impulsão ao corpo que se arrastava sobre o próprio sangue.

A pintura se estendeu por cerca de dois metros, até que apenas espasmos curtos restassem.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

GERMEnal

Olhou no espelho, mostrou os dentes, e viu caries pretas na base dos caninos inferiores. Não se preocupou, antes, sentiu uma espécie de satisfação amarga. Nunca havia tido um podre nos dentes, talvez quando fosse criança, mas não em sua dentição permanente. Quanto tempo já fazia que não se preocupava em escová-los? Olhou pelo batente do banheiro e pensou que talvez o mesmo tempo que já não arrumava a casa, o mesmo tempo que as roupas se empilhavam pelos cantos exalando um odor característico, o mesmo tempo que vira a desgraça irremediável de ser humano.

Uma pressão na cabeça começava a despontar, ainda não classificava como dor de cabeça. Pensou que talvez o corpo já estivesse buscando alternativas pra compensar a fome, lembrou das vias neoglicogênicas e glicogenolíticas, tentou lembrar os intermediários da lipólise até o acetil coa, mas não conseguiu. Foi até a cozinha para remediar as três bananas ingeridas no transcurso de 36 horas. A despeito da possibilidade de cozinhar, lavou dois ovos, meteu-os com casca dentro do liquidificador sujo e com mais um tanto de leite preparou sua refeição. Apesar da náusea reflexa, virou o copo do liquidificador de uma só vez.
Recostou no sofá para buscar alguma distração na misérias dos mineiros de Zola, mas a passividade dos grevistas esfomeados impressas naquelas paginas fez lembrar a sua própria rebeldia pacifica.

“Se o pau comesse as coisas seriam mais pacificas, o que fodia era o monopólio da violência”. Apesar do pensamento, não conseguia pensar em nada concreto para materializar todo o ódio que assolava sua mente. Sentiu desprezo por seu ódio medíocre, viu nele fraqueza, incapaz de transpor uma série de medos: suficiente para responder agressivamente a uma provocação, mas sem coragem para agredir, sem coragem para a violência pura.

Fechou os olhos procurando se acomodar sem encostar-se a sua própria pele, sentia-a suja, grudenta, fosse antes tomaria banho, ou nem se quer chegaria a ficar com esse suor impregnado. Naquele escuro forjado teve certeza que se tivesse um pedaço de terra, com poucas sementes e uma inchada não haveria fúria, nem dilemas morais, nem filosofias da miséria. Mas era um animal trancafiado em seu apartamento, doente, com pensamentos difusos e um sentimento de impotência crescente.

Deixou o livro de lado ignorando o que ocorreria àqueles miseráveis rebelados, e da mesma forma, buscou dormir, descrente do próprio futuro.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Só o primeiro dia

Dezoito horas que ela havia partido. O insuportável não eram as horas, mas o partido. Dezoito horas de enclausuração, mas não eram as horas, era a ausência de perspectiva de sair do cárcere, de ter seu amor estancado, se aglutinando pelo corpo, embolizando seus sentidos.

Quando criança a ausência da mãe, mesmo da cotidiana ida aos primeiros anos escolares era sofrimento rotineiro, sentia saudades. Mas agora não era uma relação filial, não se tratava da segurança e afeto das relações inerentes entre útero e eclodente, era algo muito mais visceral, era cardíaco, cerebral, sexual, era sua alma gêmea que partia e não voltaria ao soar do sinal.

O por do sol também lhe rendiam apertos, a penumbra se espessando e o grande astro sendo cortado pelo horizonte lhe fazia sentir, muitas vezes, algo soturno. Mas agora não era o pequeno sol, viveria feliz sem ele, mas ao lado dela.

A morça da saudade, hidramática das personalidades biliosas, começou pressionar-lhe o peito e em poucos minutos já lhe encurtava a expansão pulmonar.

Ligou a tv em busca de alguma presença sonora, mas o espaço torácico continuava a se reduzir. Foi até o computador procurando analgesia mais interativa, mas ninguém mais poderia lhe confortar e menos ainda virtualmente.

Quis deixar de existir, mas sem morrer, virar vento sem ter de se matar. Encurralado, olhou ao redor e só viu sua angustia que já beirava o desespero. Talvez fora de casa algo o distraísse, mas já não era talvez, tinha que sair, o desespero, o desespero!

Na rua a claridade o acalmou um pouco. Lembrou dos beijos - sempre cultivou cada detalhe para que não se tornassem entediantes - os beijos, lábios macios que brincavam com os seus antes que se fundissem em saliva e línguas; mãos delgadas e afetuosas permeavam seus cabelos pendulando entre o carinho meigo e o sensual.

Mas essa breve distensão não foi suficiente para chegar ao final do quarteirão. Seus olhos recobraram o foco ao mesmo tempo que a imagem mental se turvava e na medida que essa rápida transição ocorria sentiu como se algo em seu peito se rompesse, sua garganta entrou em colapso, como se alguém o esganasse. Apertou a mão sobre o esterno em busca de algo tangível para arrancar, a dor já lhe era física, mas no fechar dos dedos somente sua camisa se prendeu. Repetiu a ação enquanto em deglutições forçadas tentava engolir o que lhe pressionava a glote.

“Ah meu Deus!”, foi só o que conseguiu formular em pensamento, que se afunilavam em angustias pavorosas.

“O sol, o sol!”. Entardecia, mas o sol ainda brilhava morno, talvez a presença luminosa o reconfortasse. Apressou os passos até a avenida, onde não haviam tantas arvores, e no primeiro momento em que se viu banhado de claridade parou, olhou diretamente para o sol, mas não resistiu por muito tempo. Cerrou os olhos, deixou que os braços pendessem com as palmas das mãos iluminadas para receber o calor.

Inspirou o mais fundo que pode e sentiu a temperatura lhe acolher. Pensou naqueles braços que lhe envolvia de tantas formas: as vezes furtivos lhe apertavam enquanto estudava, outras vinham abertos em sua direção, por vezes o aquecia nas madrugadas imprevistas dos desdobramentos dos passeios da tarde desprovidos de agasalho, e muitas vezes, por horas a fio, agarravam-se ao seu corpo e permaneciam ali, com o misterioso poder de parar tudo ao redor e acelerar os relógios.

Mas a realidade verteu gélida e pegajosa, grudou em seu corpo uma massa fria que repelia as ondas solares, e começou a sentir frio e infinitamente só em seu desespero.

Abriu os olhos, logo o sol, desapareceria no horizonte. Os globos oculares moveram-se rápido para os lados em busca de alguma saída, “uma idéia, rápido!”, não suportaria mais a despedida estelar...

“O chuveiro, o chuveiro!”. Voltou correndo para casa, fugindo do que lhe parecia dose insuportável, mortal de angustia.

A respiração atravessava arfante e dolorida pela garganta. Tirou a roupa apressado, na esperança de despir-se da saudade.

A água que jorrando forte e quente o acolheu. Ergueu o rosto para o alto, sentiu-se mais seguro para envolver-se em sua dor. Deixou que um urro escapasse de sua boca pouco aberta, mas em grande tensão muscular.

O chuveiro, seus olhos, nariz, boca, todos mesclavam seus fluidos. Sentou-se no chão abraçando as pernas fletidas, encostando o rosto nos joelhos. Na medida que se acolhia o choro se tornava mais abundante, desesperado, e a opressão em seu peito reduzia aos suspiros. A água escorrendo abundante o deixava a vontade para secretar sua dor liquefeita.

Queria deixar de existir, escorrer pelo ralo inconsciente.

Naquele momento compadeceu-se dos suicidas, dos adictos fugitivos de si mesmos, sentiu um pesar devastador em pensar que havia outros desesperados em dor, que a todo segundo alguém se desfacelava em angustiosa saudade, dos pais que perdiam seus filhos, dos amores desfeitos pelas tragédias, das traições...

Permaneceu no chão por quase duas horas. Certo de que o sol já havia sido sepultado, resolveu se levantar, mas, sentiu-se fraco. Ergueu o braço direito e tateando por cima da cabeça pousou demoradamente a mão sobre o registro. Receava perder o conforto compassivo da água quente. Fez um pouco mais de força e se pos de pé. No intento de demorar-se um pouco mais agarrou o sabonete e friccionou pelo corpo, sentiu os movimento um tanto incordenados. Ao esfregar a face deixou que uma quantidade ardidamente dolorosa chegasse ao olho. Seu primeiro impulso foi colocar a mão para o lavar, mas, percebeu que a forte dor física causava-lhe certa emancipação do padecimento psíquico. Então, apenas esforçou-se por abrir os olhos para deixar que a água arrastasse gradativamente a química nociva.

A medida que a ardência passava, uma clareira consciente foi se abrindo. Aproveitou para desligar o chuveiro e sem se enxugar encarou-se no espelho. Viu o sofrimento estampado, uns olhos muito vermelhos se fixaram nos seus.

Cerrou os dentes com forca, contraiu vigorosamente os músculos faciais em mais uma tentativa de negar a realidade. Inútil, os mesmos olhos vermelhos o fitavam. Uma cara de revolta mirou para ele e “Agora somos só nós!”.

Alcançou a toalha sem deixar de se olhar. Dirigiu-se ao quarto e começou a se vestir vagarosamente, porem com o aumento gradual da angustia foi apressando a ação. Começou a temer o padecimento extremado que retornava.

Em passos rápidos acendeu todas as luzes da casa e deixou todos os cômodos abertos. Pareou no corredor diante do grande espelho. Apertou as mãos fortemente contra o peito. As lagrimas atingiam o chão, algumas tocaram seus pés. “Não posso suportar mais”, pensou em beber algo, mas não tinha nada alcoólico em casa, também não tinha ansiolíticos nem sedativos.

Começou a contrair-se, e buscou a cama para dar mais liberdade ao seu sentimento de opressão. Se contorcendo todo e com o rosto e as mãos molhados, começou a respirar aceleradamente, desesperadamente rápido. Uma embriagues oxidativa foi apaziguando seus movimentos, já não pensava em muita coisa, era todo respiração, era todo contrações curtas do tórax, era todo o som ritmado do ar se deslocando.

Aos poucos as pálpebras foram se fechando, um silêncio em sua mente foi se formando em meio a pensamentos difusos e que iam tendo o ritmo desacelerado. Já não formava imagens nítidas... :

A atmosfera rarefeita se tornou,
Pela altitude das angustias dilacerantes,
A resposta fisiológica ofegante,
E em oxigênio o encéfalo se afogou.

Dispersa em embriagues oxidativa
A realidade que lhe ceifava os desejos
E as lágrimas, solvente benfazejo,
Diluíam a lógica positiva.

Exausto, em pálpebras de chumbo,
As águas corriam mais brandas
E o tórax mais expansivo.

Aos poucos se despedia do mundo,
E em sonhos atendidas as demandas,
Enfim, o silêncio, o alivio.


Bruno volski

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A fenda

Não sabia ao certo quando aquelas pequenas folhas de nervuras paralelas e longilíneas haviam irrompido na tênue fresta entre o meio fio e a calçada. Mas agora, com pouco mais de um palmo, tinha estatura suficiente para estampar contraste em meio a tanto cinza amarronzado de sujidade velha. As estreitas folhas alojavam-se sob estreita fenda quase de frente para a estreita porta que escondia corredor também da mesma dimensão entre loja e outra.

Ainda muito cedo, sob céu que começava a se azular, ele saia para o trabalho, e na penumbra recém desfeita um verde escuro emanava daquele pequeno ser. A porta rotineiramente rangia rápido a essas horas, mas, já há alguns dias que esse costume era abalado. O ranger era mais prolongado, quase cuidadoso, e dividido em dois tempos, o primeiro, para que a cabeça espiasse se ali estava o vegetal, e o segundo para deixar passar o corpo. Contemplava altivo aquela planta, como quem contempla um inimigo derrotado, com um ar orgulhoso e respeitoso. Pisaria nela se não fosse tão pequena, esmagaria suas folhas, e folhas é tudo o que é, a esfacelaria sob a sola gasta de seu tênis. Mas não gostava de covardias, fosse maior, lhe daria um bicudo, ou lhe agarraria pelo tronco e esganaria chacoalhando toda sua copa.

E assim partia, com alguma raiva que se somava aos seus passos rápidos, passos de quem já ha muito não dividia caminhada com alguém.

Ao retornar, a escuridão começava a se refazer, de tal sorte que a claridade era quase a mesma da manhã, mas o barulho e movimento eram maiores, e o cheiro dos escapamentos era visível. Não reduziu os passos até que estivesse de frente para sua esguia porta. A chave no trinco, com um movimento de cabeça olhou por cima do ombro esquerdo e de canto de olho, por onde a luz atravessava sem divergir pela lente do óculos velho e de vidro riscado, viu embaçado o verde, quis virar um pouco mais para que seus óculos o auxiliassem. Desistiu da idéia, não se rebaixaria a esse ponto, mas detinha seu olhar, tracionando a musculatura de seus olhos desconfiados, mas o desconforto se tornava físico, e já podia sentir seus globos oculares.

Virou o trinco, entrou sem olhar para traz. Trancou a porta e seguiu corredor a dentro.

No meio da madrugada a porta rangeu em um só tempo. E com um impulso deixou que ela fechasse atrás de si fazendo um barulho significativo. Tinha a cara cansada, de quem fechava os olhos mas não dormia.

Aproximou do vegetal, até que estivesse entre seus pés. Olhou para baixo, e ofegante, como se tivesse tomado uma decisão difícil, estendeu a mão até suas folhas sem dobrar os joelhos, mas sentiu os tendões e desistiu da manobra. Olhou detidamente o horizonte estreitado pelos prédios e acumpridado pela rua. Parecia vazia, não fosse aquela insignificância arrogante que rebentava despropositadamente em meio ao cimento.

Sentou-se no meio fio em movimento vagaroso, e faltando pouco pra se encostar, deixou o corpo cair, sentindo certo abalo na coluna. Com a planta do seu lado direito poderia estender-lhe a mão mais forte e arrancar-lhe toda, até suas raízes, não incorrendo no risco de passar-lhe a faca e dias depois algum broto diminuto viesse denunciar-lhe a ação.

De súbito, agarrou a planta, abarcando todas suas folhas em sua palma. Apertou o punho até tremer-lhe todo o braço, mas não puxou. Fechou os olhos com força concordante com sua mão, ressaltando-lhe todas as rugas do rosto. O punho tremendo e os dedos alternando em qual fazia mais força iam esmagando o pequeno chumaço de folhas. Com os olhos fechado aproximou a face da tremula mão. Já podia sentir o cheiro que emanava. Tocou o rosto nas pontas das folhas que escapavam por entre o indicador e o polegar.

E por entre a fenda mergulhou até a raiz do vegetal, e ali estava ele criança, correndo sobre folhas longilíneas e paralelinervias atrás da bola rudimentar. Outras crianças corriam com ele, e cansados de bola subiam em arvores, dependurados em galhos, muitas vezes presenteados por frutos não muito maduros, mas de consistência suficiente para a impaciência da idade, e com algumas tabuas equilibradas, pregadas e amarradas entre os galhos, aquilo se tornava o melhor e mais arrojado esconderijo e recanto do universo, e com um chumaço de folhas era possível comprar pedras especiais de quem vinha la de baixo para poderem serem arremessadas nos frutos mais altos...

A dor chamava-o para fora da fenda, o braço fadigado já não conseguia exercer tanta pressão. Soltou o vegetal, algumas folhas não se sustentaram e arcaram nos pontos danificados. Olhou para uma das direções da rua, levantou-se, apertou a mão contra a face, sorveu todo o cheio que pode e seguiu, mas já sem toda aquela pressa inconsciente.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Nas linhas de frente (Relato de experiência)

Quando mencionaram violência sexual já me bateu um mal estar mesclado com tristeza, nada de raiva, nem muitas palavras na mente, só esse sentimento. Esfreguei a mão na cabeça enquanto contraria a musculatura da testa, formando algumas rugas, os olhos se detinham fechados durante a ação.

Ao falaram a idade da criança eu fechei a mão com chumaço de cabelo preso entre os dedos, e numa inspiração profunda puchei enquanto fechava os olhos com mais força desfazendo as rugas da testa.

Era a reunião de sexta-feira no hospital, uma supervisão onde discutíamos os casos atendidos no projeto de psicologia hospitalar. Sempre que não tínhamos aulas de patologia na sexta íamos nessa supervisão, eu e o grande amigo Marco, e quase sempre em silêncio, produzido pela vergonha e insegurança de estar em um campo de estudo e trabalho um pouco diferente do nosso e entre tantas mulheres.

A descrição do caso ia revelando nuances cada vez menos coloridos, até compor um quadro horrendo, um borrão cinza. Sua constituição física, já comprometida por algumas debilidades motoras, alem de algum grau de autismo, sofreu, mais que os terríveis abusos sexuais, padeceu de mais violência física, mão e pé quebrados, marcas antigas de queimadura de cigarro, uma contusão facial muito provavelmente produzida por soco. O quadro inspirava profundo cuidado da parte médica pois havia sérios riscos de morte, e um cuidado não menos intenso era demandado dos psicólogos e futuros psicólogos engajados no trabalho.

Mãe conivente com as ações do padrasto. O caso havia sido descoberto por uma assistente social que desconfiava das historias mal contadas pela mãe sobre os ferimentos do garoto.

A face se contraia em uma expressão de desanimo, uma respiração profunda como se uma canseira se apoderasse de mim, uma canseira que não era física, era um desgaste por tantas atrocidades cometidas pelos seres humanos. Não havia uma gota sequer de raiva, nada, apenas um padecimento silencioso, um pesar muito grande por toda a humanidade.

A reunião seguiu, mais alguns casos foram descritos, mais algumas perturbações, mas nenhum havia provocado impressão tão forte quanto a primeira.

Passaram-se 6 dias até que voltássemos às atividades do projeto. Após uma aula de conteúdo desnutrido, vestimos nossas armaduras brancas e transpusemos um pouco de nossos medos, encorajando-se mutuamente, e eu e o Marco seguimos à sala da psicologia hospitalar. Ali a coordenadora sugeriu que visitássemos a criança do terrível ocorrido. Eu e o Marco trocamos um olhar significativo, como se confirmássemos que nossos pentes estavam cheios e o gatilho devidamente destravado para uma missão de assalto, tensos, amedrontados, mas convictos.

O campo era totalmente desconhecido, nem mesmo como chegar na uti pediátrica sabíamos, nem tão pouco se poderíamos entrar.

Depois de alguns corredores chegamos à entrada. Abri vagarosamente a porta, olhando cuidadosamente, reparando se estávamos sobre a mira de alguém e fomos adentrando vacilantes, -e agora torno a narrativa, dos aspectos subjetivos, no singular pq não posso dizer o que havia no universo particular do meu amigo- temendo ser alvejado por alguma reprovação.

Caras inéditas vestiam um jaleco diferente, azulado e de conformação distinta do que trajávamos. Perguntei se precisaria de um daqueles, e me indicaram o armário onde conseguiríamos o par.

Com as mãos devidamente lavadas, inquirimos sobre qual sub-aposento estaria o pequenino. No minúsculo módulo de tratamento estavam algumas pessoas: uma senhora sentada próximo ao leito, dois médicos e talvez uma aluna de anos avançados.

Nos postamos um pouco afastados, temia alguma repressão, mas nem nossos nomes quiseram saber, era como se não estivéssemos ali para eles.

Dali pude ver a criança e...

Meu Deus...

Uma respiração profunda, enquanto sorvia o ar, fechei os olhos com força por alguns segundos, poucos pensamentos se processavam enquanto uma tristeza profunda e desfocada pressionava o peito.

Uns olhos muito expressivos, de um vigor contrastante com sua frágil constituição física, comunicava a sua profunda insatisfação com os procedimentos médicos. Sua mãozinha buscava, em um esforço hercúleo, retirar a mão do medico que tentava uma ausculta em seu abdome, o outro doutor imobilizou o significativo esforço do pequeno, pareciam dois gigantes diante da pequenez da criança. Seus leves quinze quilos denotavam desnutrição, mais um nuance de crueldade, cuja sonda parenteral tentava contrapor.

A criança gemia em seu esforço contrariado, os médicos pouco falavam, a frialdade dos procedimentos talvez tentasse proteger os sentimentos daqueles homens, que apesar de grandes, e de armaduras brancas reforçadas por outras azuis, eram possuidores de sentimentos, duvidas, expectativas, angustias...

Observei mais atento os equipamentos, seguindo as mangueiras que partiam do pequenino até as maquinas ainda desconhecidas pra mim. Nessa observação notei que algum coração sensível por ali estivera, e pacientemente materializou seus bons sentimentos em delicados móbiles feitos com alguns materiais do próprio hospital. Talvez não esteja certo, mas creio que não teriam sido aquelas mãos de gigantes de mascaras apáticas a fazê-los.

Enquanto aguardava a saída dos médicos, na batalha em que me encontrava, a trincheira foi se enchendo de lama, e a umidade foi infiltrando no coturno, gelando pés cansados, de soldado acuado há meses, que começava a se questionar o porquê do absurdo hediondo de combater, o porque da violência, e o porque de responder com ainda mais violência. As palavras de algumas das psicólogas me vieram em mente: “a morte seria pouco para um ser desses” se referindo ao padrasto, e aquilo foi como um vento frio no meu posto lamacento, uma tristeza desolada me cansou ainda mais. Putz, elas são psicólogas, talvez tivessem por dever crer na capacidade de transformação do sujeito, no entanto estavam reivindicando a pena capital para o individuo e sugerindo a tortura, a total desistência da possibilidade de alteração, em que toda a pedagogia é enterrada, sepultada, e em lapide fria grafada em letras raivosas de vingança: aqui jaz toda a humanidade.

Emudecido em minhas reflexões arfantes, me deparai com a ausência dos médicos e a necessidade de fazer algo. Eu estava frente a frente à senhora postada na cadeira para acompanhantes, fronteiriço o leito se estendia entro nós. Cogitei sobre a possibilidade de ser a mãe da criança, mesmo sabendo da conivência da mãe nenhum sentimento de ódio me veio, pelo contrario, padeci da enfermidade mental da senhora, sem os preconceitos da culpa. Creio que culpar seja uma forma limitada e limitante de observar a causalidade dos fenômenos, creio que um universo mais abrangente desponta quando atribuímos responsabilidade e não culpa; a culpa é imbuída de preconceito, é estática e fatalista, geradora de repressão e ódio, mas quando atribuímos a responsabilidade, então a ação é passível de compreensão e, assim, de transformação, validando métodos pedagógicos, validando acreditar na humanidade, validando todo o esforço por melhorar-se e melhorar o mundo. Imbuído desses valores filosóficos me dirigi polidamente à senhora, questionando como ela estava. Claro que a resposta foi uma afirmação categórica sobre estar bem, automática, não havia ali vinculo nenhum de confiança, e por traz dessas afirmativas robóticas estão arames farpados, protegendo o sujeito do outro desconhecido. Questionei se ela seria a mãe da criança, e a resposta foi não, ali estava eu diante da avó, e meu suposto engano me garantiu reflexões pra mim muito acertadas.

Modifiquei meu tom de voz, para algo mais amoroso e gentil e me dirigi à criança, sem saber se minhas palavras seriam compreendidas, mas consciente de que alguma parte da comunicação seria feita, seja pela tonicidade vocal, seja pelas emanações psquicas, ou pelo meu acanhado gesto de carinho que estava ensaiando. Estendi a mão até os cabelos curtos e de diminutas voltas concêntricas decididas do pequenino. Dirigi algumas palavras de estimulo, externei um sorriso limitado, que surgiu sincero, por ser estarmos ali, todos juntos reunidos, mesmo que sob circunstancias tão sofríveis, um acanhado sorriso por compreender ali estar um espírito em potencialidades infinitas, em um momento de experiência, de lições complexas para todos, mas em estado transitório da caminhada, abstrações semelhantes se formaram sobre os agressores, e uma confiança ainda maior na necessidade de sermos pedagogos humanistas e não chacais vingativos, vigorou em minha mente, e um pouco do desgosto deu lugar a necessidade de trabalho em catalise à transformação do sujeito, trabalho na compreensão da mente inquieta do seres humanos, trabalho em serviço ao próximo.

Um tanto acanhado, sem roteiro algum a seguir, resolvi me despedir. Antes perguntei se teria algo que eu pudesse fazer pela senhora, ela respondeu que não, que apesar de suas dificuldades de estar ali a algum tempo, sem estrutura de alojamento, não havia nada que eu pudesse fazer. Facilitei para que ela falasse um pouco mais, ela disse de suas roupas que eram lavas ali mesmo, do desconforto da cadeira, da sua triste surpresa em vir de tão longe, Curitiba, para enfrentar tal situação. Arrefecido sua fala, me despedi dela e do pequenino, em palavras ternas...

Ao começar me afastar, algo inesperado pra mim aconteceu.

Por entre a pequena grade de tubos de aço em paralelo que circundava a cama, o pequenino estendeu seu delicado bracinho em direção a minha mão; eu aproximei-a, facilitando a sua ação, e em um gesto que creio não se apagará da minha mete, ele abarcou meu indicador com toda sua pequena mão... olhei para o alto, em respiração profunda, tentando conter as lagrimas que eram anunciadas pelos nós na garganta.

Segundos depois ele soltou meu dedo, e dispersou seu olhar. Olhei para o Marco, que ali estivera todo o tempo como soldado cobrindo a retaguarda para o avanço mais seguro, garantindo que eu transpusesse meus medos em ambiente tão desconhecido e situação tão penosa.

Seguimos, sem muitas palavras...

E em casa, as lagrimas se fizeram abundantes...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Um natal qualquer, uma experiência única.

Um pequeno pasto a minha esquerda, que me acompanharia por uns 400 metros acrescentou a poesia necessária do dia. O sol se pondo ao fundo, o vapor da água refletia alguns raios que transpassavam ruidosamente as nuvens tornando visíveis seus feixes, quase audíveis. Havia chovido fazia poucas horas, mas não se via água no caminho, exceto por algumas poças mais profundas, e toda aquela umidade parecia ter convertido o pasto em um tapete verde obtuso. Na mente um fundo musical bem definido se desenvolvia nitidamente em acordes suaves e voz grave (Edie Vedder – Into de wild) sobre a influencia do filme que havia assistido à poucas horas.

Meus passos vacilantes, a procura de um caminhar antalgico para meu dedinho do pé, maltratado no dia anterior por uma topada, dessas que lembramos da mãe, não era menos vacilante que meus pensamentos que, apesar de contemplarem a cena de cores vigorosas que se desdobrava a minha esquerda, estava indagativo: eu não sei fazer nem se quer uma sutura, sou limitado em minha capacidade de escutar, e ainda não tenho nenhum plano em mente, o que vou fazer lá? Não conheço os funcionários, nem os médicos, nem os residentes, nem os pacientes... Mas ali era minha vontade, meu sentimento, ditando que era para que eu fosse. Então me lembrei do Rogers (Róginho segundo a querida Lara =D ) que afirmava empiricamente que toda vez que seguiu seus sentimentos acabou por finalizar em uma experiência muito acertada, ao contrario de quando guiado por seu intelecto.

Um pouco mais resoluto, guardava a mente em um estado contemplativo, as ruas bastante esvaziadas pelo natal, e o silencio espesso de minha mente concentrada na observação passiva.

O calor do dia vencera a chuva, e o asfalto estava seco, o pasto que margeava meu caminho já havia me abandonado há alguns metros. De longe vi que meu atalho estava suficientemente transponível, mesmo na ausência do asfalto. Ali o silêncio era ainda maior, pude ouvir os passos mais vigoroso do coturno que continha o pé não lesionado, enquanto o outro tentava se esquivar das pedras maiores. O cavalinho estava ali no fundo do terreno do hospital como sempre, e como sempre estava pastando o verde que crescia espontâneo. Dali vi o estacionamento, que estava bastante cheio, curioso por ser natal, mas observei que não eram os carros novos dos alunos, eram um pouco mais usados, algum muito usados, desgastados pela areia que escorre irremediavelmente, sem retorno para a parte superior da ampulheta existencial, então já não ficou tão curioso todos aqueles automóveis ali, eram os acompanhantes.

Chegando mais perto, reparei que o modesto pinheiro, próximo ao pronto atendimento, estava com algumas luzes. Quem será que as colocou ali? Será que por determinação de alguém em posto de poder? Ou será que fora ação espontânea de mente criativa e sensível?

Tudo estava muito alterado por minha percepção, muito alterado. O peso da obrigatoriedade da presença acadêmica, a ausência de autoridade, a liberdade por estar ali por escolha, alterou todas as cores, todas as dimensões, e todos os sons, estavam todos mais bonitos e mais reais, o ambiente transcendia seu papel coadjuvante.

O jaleco cobriu as forças do Exercito Zapatista, os rasgos da camisa e seus rebites agarrados com dificuldades às fibras apodrecentes. Mas o guarda-pó hasteou o Anabola, gravado no bolso esquerdo do peito, trajando o coração com a simbologia das mais elevadas aspirações sociais de amor indescritível pela humanidade, de justiça, criatividade, ordem, liberdade e responsabilidade.

Na entrada uma palavra de encorajamento para quem chegava para o trabalho em data tão significativa. A penumbra acrescentava mais uma camada de tristeza aqueles corredores empalidecidos. Lavei minhas mãos, sentido a água, acho que fora a primeira vez que o líquido realmente esteve presente em suas propriedades físicas ali no hospital, passível de ser sentida, na mente liberta da obrigatoriedade.

Algumas pessoas já adormeciam em seus leitos, quase todos dotados de acompanhantes. Mas ali no fundo do corredor da ala cirúrgica uma cena me chamou a atenção: uma penumbra cobria o quarto silencioso, parecendo ainda maior a solidão do homem que ali estava, ocupando solitário um dos três leitos disponíveis no aposento. A impressão que tive era que se concentrasse um pouco mais poderia ouvir o gotejar do soro, e esta água de concentração ideal era a única coisa visível a se movimentar. Não entrei, recuei, busquei o prontuário. O enfermeiro que me entregou fez alguma brincadeira com relação a estar trabalhando na data comemorativa, “os amaldiçoados”, segundo ele, rebati dizendo que aquilo era um trabalho bonito, muito bonito, não sei se provocou alguma reação, ele já virava o corredor enquanto eu finalizava meu comentário. Primeiro o nome, L., tinha sido uma cirurgia de apêndice, parece que emergencial, ali constava também que o paciente era comunicativo e estava um pouco ansioso, outras informações não me chamavam atenção, faltava conhecimento para tanto.

Adentrei o quarto, L estava sentado quase deitado, olhos fechado mas não dormia, ao meu aproximar foi abrindo os olhos. Estendi a mão, que foi prontamente acolhida, perguntei como estava, disse estar se sentindo melhor apesar da dor; constatei que ansioso estava eu, não havia me apresentado. Uma enfermeira adentrou o aposento, interrompendo a conversa e me dando algum tempo pra pensar no que faria naquele dialogo, como conduziria, e percebi que ali residia o problema, no conduzir, no planejar, tinha que acreditar um pouco mais na inteligência do universo e deixar que a espontaneidade imperasse.

A enfermeira se foi, e pude me apresentar. Voltei a indagar, de fato L era comunicativo, respondeu prestativamente as perguntas, muito embora falasse com uma entonação de padecimento, sua dor era evidente. Indaguei sobre seu estado doloroso, ele caracterizou precisamente os sintomas, disse também da dor nas costas referente a uma operação de hérnia de disco que realizara no ano anterior, cujas marcas fez questão de mostrar. Um pouco mais de conversas técnicas até que conseguisse, em mim, permitir adentrar no campo emotivo de L. Questionei sobre a dificuldade em estar ali; um pouco mais de seriedade pintou seu semblante, disse estar se acostumando, pois no ano anterior também esteve no hospital devido à cirurgia nas costas. Perguntei se existia algo que poderia fazer por ele (me lembro da primeira vez que perguntei aquilo no hospital, fiquei alguns minutos meditando se eu estaria disposto a fazer essa pergunta sinceramente e arcar com suas conseqüências), ele pediu para que eu verificasse se seria possível alguma analgesia.

O enfermeiro adentrou o quarto para verificar o soro e colher algumas informações. Fiquei pensativo se indagaria sobre o anestésico ali na frente de L, se isso talvez não quebrasse a autoridade do enfermeiro, se talvez não fosse melhor que estivéssemos longe dos ouvidos de L para conversarmos sobre a analgesia. Mas antes que eu criasse mais complicações intelectuais o enfermeiro disse que logo prepararia o anestésico.

O enfermeiro se foi, ficamos novamente a sós. Perguntei sobre o que mais estava fazendo falta estando ali em um dia especial; prontamente L respondeu serem seus filhos, um casal, a grande falta do dia. Explicou que durante este ano transcorrido esteve de licença, passando todo o tempo com as crianças enquanto a mãe trabalhava, e durante esse período se apegou demasiadamente às crianças. De fato pude perceber como sua voz se tornava terna ao mencionar seus filhos. Mas seu semblante foi lentamente transfigurando, do sorriso sereno à um olhar vago ao lembrar a distancia. Não poderia ver seus filhos, pois era proveniente de outra cidade, 90 quilômetros, mas que no momento não poderiam ser transpostos. Também não poderia ligar, não tinha celular, não tinha cartão telefônico, nem sequer algum dinheiro. Aquele quarto solitário me pareceu ainda mais desolador, aquele homem padecia de seu corpo e de seu coração, e aquilo me comoveu, me senti impotente, me senti fraco por não conseguir me comunicar mais calorosamente, e me senti ingrato por ter tanto e partilhar tão pouco.

Perguntei se havia mais alguma coisa que poderia fazer. L disse de sua duvida sobre a licença trabalhista: que venceria em fevereiro, mas que talvez não estaria recuperado da ultima cirurgia a tempo, enfim, se poderia ter o tempo de licença prolongado. Eu disse que poderia pesquisar, que na semana seguinte se ainda estivesse no hospital e se eu obtivesse alguma resposta, partilharia.

Bati a mão no bolso e me lembrei de um fato curioso que havia acontecido ainda quando eu estava em casa: antes de sair, fui pegar meus documentos na gaveta, especialmente minha carteirinha do hospital, creio que sem ela ficaria interessantemente complicado a entrada no hospital com este “belo” (haja relatividade) moicano na cabeça. Ao lado dos documentos havia uma nota de 5 reais, e inexplicavelmente eu a levei comigo, algo estranho, considerando que raramente ando com dinheiro, e sem um propósito fixo de gastá-lo é ainda mais difícil me encontrar com mais que alguns centavos no bolso, mas peguei.

Arrefecida a conversa, me despedi, desejando um feliz natal apesar de ser essa uma situação desagradável, mas que era para o bem dele. Corri para fora do hospital, saindo pela frente e não pela portinha dos estudantes. Na saída fui barrado, “quem é você que nunca vi aqui”, disse o recepcionista. Pensei rapidamente, que aquela era uma excelente pergunta, quem sou eu? (alguns já devem estar rindo a essa altura “é a cara do Bruno” – bom... é... talvez seja a minha cara mesmo hehehehhe.) Agilmente entreguei minha carteirinha, e perguntei se encontraria por perto onde comprar algum cartão telefônico; o simpático e enérgico senhor me apontou uma farmácia logo adiante. Fui em passos apressados, um pouco angustiado por talvez o dinheiro não ser suficiente para o cartão, então pensei que poderia pedir alguns centavos na rua para completar o necessário, usar o aprendizado do “maguêio” street punk. Mas, na farmácia já não havia mais cartões: “estão em falta, mas poderá conseguir aqui no bar ao lado”. Agradeci, e com poucos passos cheguei no bar. Questionei e, “sim temos cartão, é de quarenta unidade”, pensei que o dinheiro não daria, questionei novamente, “4,90”, ufa, quero um.

Lembrado do troco que deixava pra traz me dirigi contente para o hospital... cobri novamente os encapuzados zapatistas. Não pensei muito até chegar no leito. Estiquei o braço com o cartão e disse: olha o que eu consegui com um amigo, ele disse estar cheio, agora se é verdade eu não sei. L fez uma cara muito interessante, um sorriso transpareceu malcontidamente e percebi que ficou um pouco confuso sobre o que diria, não dei tempo para sua confusão, dei um tapinha na sua perna dizendo que “não esquentasse”, e que eu tinha que ir e que se conseguisse a informação da licença voltaria para compartilhar.

Fiquei um pouco chateado ao sair, porque tinha mentido para ele, seria suficiente ter dito que tinha conseguido o cartão, não precisava ter inventado a historia do amigo. A reflexão sobre a necessidade de melhora foi suficiente para recobrar o bom ânimo.
Pensei então no tal do acaso e...

Uou! Quem acredita em coincidências é uma pessoa de fé, a fé materialista, da qual já não preciso mais porque tenho o racionalismo espiritual (a ciência materialista é baseada em postulados criados puramente pela criatividade humana, não representam a realidade absoluta e jamais representarão, está no máximo no mesmo campo de credibilidade que a pulsão religiosa, muito embora o pavor do materialista faça-o agir com preconceitos). Que seria aquela imprevista nota no bolso, e aquela vontade de estar ali naquele momento?

Segui para outras alas do hospital, os outros leitos estavam todos com acompanhantes. Dirigi-me para o pronto atendimento, e as macas estavam espalhadas pelo corredor como de costume, e todos ali estavam com acompanhantes. Fui seguindo até o final do corredor, e uma espécie de “contentamento descontente” (não se refere exatamente ao mesmo significado do poema) me apeteceu: haviam seres dispostos a estarem com seus queridos ali, naquela data especial, compartilhando de seu tempo e atenção, achei a cena muito bonita, e fiquei assim, contente apesar de comovido com tanto sofrimento, senti também como de fato o sofrimento nos iguala, afastando as distancias imaginarias.

Lá no final do corredor havia um desacompanhado. Mas, este, imaginei, talvez fosse solitário também nas ruas. Parecia um andarilho, sua roupa rasgada e suja, do lado de seu leito estavam postadas suas muletas, e uma de suas pernas, um tanto atrofiada, quase tocava com a ponta dos dedos o bebedor. Curvei-me para beber água, uma desculpa, mais esfarrapada que seus trajes, pra me aproximar. Perguntei se o café que tomava estava bom, ele me respondeu q sim, estava sim, então disse que bom, olhei mais alguns segundos pra ele, e me despedi.

Merda, podia ter feito mais que isso.

Um tanto frustrado fui saindo do hospital, tomando consciência de meus limites, de como falta muito mais coragem para me tornar o ser que gostaria de ser, um nó na garganta se configurou, mas sufoquei qualquer intenção de lagrima.

No corredor estava L a caminho do telefone público, disse-me que já ia ligara para seus queridos, eu estralei os dedos e disse “manda vê”.

Aos poucos fui transformando aquela melancolia em felicidade. Aquilo também era bonito, minhas intenções são boas, minha vontade esta se tornando operante, sim sim, eu sou um tanto arrogante, vaidoso, tenho ainda medo do contato humano, sou o Zé-Preguiça, e poucas vezes consigo individuar os seres para estabelecer uma empatia profunda, mas sim, sim, eu tenho condições de vencer esses limites que me afastam da sincronia entre meu pensamento, minha vontade, meu sentimento e minha ação, e assumo de bom grado o trabalho na transposição dos próprios limites.

Voltando pelo meu atalho, caminhando sobre o cascalho e o capim que crescia anarquicamente (espontâneo, e de uma ordenação natural, sem violência), pensei em como estamos constantemente buscando algo, buscando objetivamente algo, e o quanto isso prejudica nossa experiência humana. Sim, podemos traçar metas, isso é importante, mas é igualmente importante estar aberto para a experiência, aberto para a voz que diz sem muita explicação, “vá no hospital hoje”, e mais sem explicação diz “leve esse dinheiro consigo”. E quando paro e reflito sobre quantas experiências perfeitamente encadeadas já tive por me permitir vivenciar, e quantas outras deixei de ter porque meu intelecto sufocou, penso que seria muito interessante se nossas buscas fossem arrefecidas em nossa ação no presente fosse mais atenta para valores abstratos.

Uma vez vi uma definição de sei lá quem da psicologia e juntando com as minhas “piras” ficou assim: o racional é apropriado para a resolução de questões com uma, duas, quem sabe três variáveis, e dentro disso pode ser muito bem representada na expressão limitada da linguagem, mas o sentimento é como uma grande matriz onde podem ser introduzidos variáveis de diversas ordens para um cálculo multifatorial, te tal forma que com tamanha quantidade de informação a expressão linear em palavras é impossível, tornando seu conteúdo mais abstrato. Por isso vemos o quão bem vivem as pessoas com familiaridade e relativa ordem de seus sentimentos. Portanto, sentimento não é uma coisa que se assiste nas novelas globais, sentimento é uma ferramenta de potencial incomensurável e deve ser tratada com muito mais atenção e respeito. Espero que possamos escutar muito mais esse supraraciocinio, pois é instrumento fundamental na aquisição de níveis maiores de liberdade.

O campo já não estava tão verde e o sol já havia transcendido meu horizonte. A pratica no andar antalgico garantia um caminhar menos manco. Algumas poucas pessoas transitavam na rua, olhei para elas imaginando que ali estava todo um manancial de potenciais incomensuráveis, mas que ainda eram extremamente limitadas, limitadas como eu. Senti que a minha experiência no hospital não me afastava delas, não me tornava melhor, nem pior, não era uma questão de “boa ação”, isso não existe, essa caridade piegas é destrutiva, limita o ser, constrange, sufoca, e não era isso..., a questão era o bem estar verdadeiro que estava sentindo, não uma pseudo-felicidade, era uma satisfação grisalha, experiente, que não se constrange com argumentações fajutas, que tem alinhado toda a constelação: pensamento-sentimento-vontade-ação, e não uma satisfação cheia de pesares de noitadas vividas sem propósitos e tempo fodido em vapores alcoólicos.

Estava na frente da casa de um grande amigo, o Fabiano, resolvi passar para um abraço natalino... bom, ai fica pra outra narrativa, tenho que dormir.
Bruno Volski

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Mais um dia vencido

A atmosfera rarefeita se tornou,
Pela altitude das angustias dilacerantes,
A resposta fisiológica ofegante,
E em oxigênio o encéfalo se afogou.

Dispersa em embriagues oxidativa
A realidade que lhe ceifava os desejos
E as lágrimas, solvente benfazejo,
Diluíam a lógica positiva.

Exausto, em pálpebras de chumbo,
As águas corriam mais brandas
E o tórax mais expansivo.

Aos poucos se despedia do mundo,
E em sonhos atendidas as demandas,
Enfim, o silêncio, o alivio.